segunda-feira, 25 de maio de 2015

Birdwatching em Urupema, SC

Pela Serra Catarinense

Por: Lúcia Rogers

Fotos foram gentilmente cedidas por Lúcia Rogers e equipe


Papagaios-charão: objetivo principal da viagem
     O objetivo principal da viagem era observar o espetáculo dos bandos de papagaio-charão, que, todos os anos, nesta época, (maio, junho) se dirigem a Urupema, para se deliciarem com os pinhões das abundantes araucárias da região.

     Em voo direto, Rio – Floripa, desembarcamos por volta das 10 horas e  partimos para a  locadora de automóveis escolhida após minuciosas pesquisas na Internet: a TOPO. Tinha boas referências e ótimos preços, mas ninguém já ouvira falar dela e, por isso, estávamos um pouco apreensivos. Havíamos reservado um Doblo, da Fiat, que, pelos nossos cálculos, seria perfeito para os cinco aventureiros mais as suas tralhas, que não eram poucas! A locadora não desapontou, e, para nossa surpresa, ao invés do Doblo, recebemos um Spin 2014, confortável e espaçoso. Mesmo assim, colocar a bagagem no porta-malas foi um desafio! É que, como   Urupema tem  a fama de cidade mais fria do Brasil, o pessoal se preparou para enfrentar o Polo Norte e as malas ficaram bem gorduchas! Felizmente, graças ao talento da Isabel para resolver quebra-cabeças, tudo foi bem acomodado. E aí... surpresa maior: câmbio automático!!! Alessandro, escolhido o motorista oficial da excursão, nunca tinha dirigido um assim! Cadê o pedal da esquerda? Cadê a marcha? Foi preciso apelar para o funcionário da locadora para algumas rápidas instruções, depois do   que o Alessandro achou que seria “facinho”! Bem, de começo não foi tão “facinho” assim! E a mulherada palpitando o tempo todo! Se o Alessandro não tivesse tido uma paciência de Jó, teria parado e amordaçado a todas nós!!!
Morro da Igreja  - Urubici, SC

        Finalmente, parada para o almoço no Mério's Country Bar e Restaurante, que tinha um aspecto agradável, em Rancho Queimado, na estrada. Acertamos em cheio: comida deliciosa e, melhor ainda, barata!!! Saindo do restaurante, ainda tivemos a surpresa e alegria de ver a primeira gralha-azul e com um pinhão no bico! Alvoroço geral e tentativas frustradas de fotografar. Mas valeu o “avistamento”!

      Depois de mais uma rápida parada para um cafezinho, chegamos a Urupema, lá pelas 5 horas. Uma cidade encantadora! Minúscula! Município com 2.500 habitantes, a maioria morando na zona rural.  Muitas casas de madeira pintadas de cores pastel: amarelas, azuis, cor-de-rosa, lilases,  sem grades, sem cercas e com jardins muito floridos. A pracinha bem cuidada, florida também, e a igrejinha pitoresca. Mas ainda não era esse o nosso destino. A Eco Pousada Rio dos Touros, onde iríamos nos hospedar, fica fora do perímetro urbano. Lá chegamos, alguns minutos depois, e fomos super bem recebidos pelos proprietários, Rose e Fernando e pelo filho do casal, o esperto Guilherme, de 7anos.

Pôr do sol  de tirar o fôlego
    A natureza nos recepcionou, também, com um espetáculo deslumbrante: um pôr de sol de tirar o fôlego! As araucárias escuras recortadas contra um céu incrivelmente avermelhado!

      Caindo a noite, fomos fazer uma “corujada”, guiados pelo Fernando, dono da Pousada. Um breu total! Todos com as lanternas apagadas para não afugentar a coruja que vocalizava, ali perto. A certa altura, e numa parte íngreme do caminho, o Fernando resolveu pegar um atalho pelo meio do mato. De repente, cadê a Lúcia??? Caiu num buraco de tatu!!! Feito o resgate,  seguimos às cegas. Osso duro de roer, caminhar pelo meio do mato, na escuridão total! Mas a coruja merecia! Era uma corujinha-do-sul,  para nós,  novidade e raridade absolutas! Não podíamos perder! E, finalmente, lá estava ela, posando tranquila para nós. Teve os seus 15 minutos de fama! Fotografada , examinada com  binóculos e muitíssimo elogiada.  Finalmente, se cansou de nosso Voyeurismo e procurou  um canto mais sossegado.

     Após tantos esforços, num frio de 8 graus, esperamos o jantar de truta,  comendo pinhão assado  e bebendo vinho. Depois? Pra caminha, que ninguém é de ferro! Alessandro, Isabel e Andiara em quartos individuais e Angélica e eu dividindo um quarto.


Fonte: escolapiauirs.blogspot
     No dia seguinte, nós duas levamos um “puxão-de-orelha”: é que a pousada tem as paredes finas,
de madeira. E ninguém conseguiu dormir enquanto não paramos de tagarelar e dar risadas. Felizmente, éramos os únicos hóspedes!

    Após delicioso café-da-manhã, com direito a interrupções frequentes para apreciar e fotografar a passarinhada que aparecia bem em frente à janela (cada um mais lindo que o outro) encontramos o guia que havíamos contratado, o Rafael. Aí, tivemos que nos dividir : Angélica e eu, no carro do  Rafael e Andiara, Isabel e Alessandro, no nosso carro. E um rádio, com o qual nos comunicávamos, de um carro para o outro: “gavião à esquerda, na árvore seca. Câmbio” ; “bando de canários-do- brejo, à direita!” “Vamos parar”. ”Positivo e operante!” Luxo total!

    Mais ou menos às 2 horas, resolvemos almoçar e partimos para Urupema em busca de um restaurante. O primeiro que localizamos, estava fechado. Aí nos informaram que, na cidade, só havia mais um, que, para nossa surpresa, também estava fechado. Os restaurantes, por lá, só funcionam até a 1 hora!  Esse último, por sorte, tinha uma porta de vidro e, como vimos uma senhora lá dentro, resolvemos bater e “mendigar” algo para comer. Compadecida de nossas caras de fome, ela gentilmente, reabriu o Restaurante Santana , pelo que lhe seremos eternamente gratos. Comida deliciosa e, mais uma vez, barata!  Parece que por lá se come com pouco dinheiro!
Curicaca - Theristicus Caudatus
    Passarinhamos, ainda, pelo resto da tarde e visitamos, também, uma famosa cachoeira que congela, no auge do inverno. Durante todo o tempo, víamos bandos enormes de papagaio-charão, cruzando o céu, ora mais baixo, ora mais alto, e sempre numa gritaria ensurdecedora. Mas queríamos, mesmo, ver um bando descendo sobre as araucárias, para comer os pinhões!

   À noite, já havíamos nos informado de que o Restaurante Santana estaria aberto, não para jantar, mas para um lanche e lá comparecemos. Na volta para a Pousada, o Alessandro resolveu fazer um tour pela cidadezinha e acabou entrando numa rua de pedestres, toda em curvas, e sem saída.  Teve que voltar, numa complicadíssima marcha à ré, mais uma vez com a mulherada opinando sem parar! Aff!

    O interessante é que era noite sábado, e não se via uma viva alma nas ruas. Parecia uma cidade fantasma, ainda mais com a névoa envolvendo tudo. Não olhamos o termômetro, mas estava bem frio! No dia seguinte, pela manhã, fazia 4 graus.

    Nessa noite, imposta a Lei do Silêncio, Angélica e eu ainda conversamos um pouco através de mímica e abafamos as risadas sob as pilhas de edredons. Detalhe: a Pousada não tem calefação!

    No dia seguinte, logo que saímos para a estrada com o guia, demos de cara com um bando IMENSO de papagaios-charão. E dessa vez eles estavam descendo sobre as araucárias! Aos montes, centenas, numa barulheira infernal. Um espetáculo inesquecível! É claro que paramos os carros e levamos horas alí, apreciando, fazendo fotos, filmando, usando os binóculos, completamente embevecidos! Até que o bando resolveu levantar vôo e procurar novas locais de alimentação.

   
Pedreiro - Cinclodes Pabsti
Ainda passarinhamos um bom tempo, sempre de olho no relógio, para não perdermos a hora do almoço. Chegamos a Urupema antes de 1 hora e...restaurantes fechados!!! Lá não se abre restaurante aos domingos!!! E dessa vez não havia ninguém por trás do vidro para nos socorrer. Rodamos toda a cidade procurando uma lanchonete, uma padaria, um boteco, qualquer lugar onde pudéssemos comer alguma coisa. Nada! Resolvemos tentar um posto de gasolina, que também não tinha combustível para humanos. Só para carros! Mas, lá nos deram uma informação preciosa: a 12 Km dalí, por uma estradinha de terra, chegaríamos a um lugar chamado Boçoroca. E lá estava acontecendo uma festa de igreja com um churrasco. Pronto! Salva a pátria, partimos para Boçoroca. Lá chegando, começamos a reparar que os participantes da festa estavam super bem vestidos, as mulheres penteadas e maquiadas e de salto alto! Os homens de bombachas e botas longas. E nós, mais ou menos desgrenhados, com roupas de passarinhagem, calças cheias de carrapicho e tênis e botas sujos de lama. Situação constrangedora, mas a fome falou mais alto. Resolvemos fazer “cara de paisagem” e tocar em frente!  O pessoal da festa já havia almoçado e estava ouvindo música sertaneja e jogando bingo no salão. Mais uma vez, nossa cara de fome despertou piedade: uma senhora nos levou até o churrasqueiro que nos apresentou os dois últimos espetos que ainda estavam sobre as brasas, num “fogo de chão” (espécie de trincheira, aberta no chão, cheia de brasas, e sobre a qual se atravessam os espetos, que lá são ripas finas, de madeira). Ficamos sabendo que aquilo era “frescal na vara”. E que frescal é uma carne que é preparada com antecedência, cortada em mantas, envolta em sal grosso e deixada inclinada, escorrendo por 24 horas, para desidratar. Tudo bem, mataríamos a nossa fome com o “frescal na vara”! Escolhemos o menos esturricado dos dois, (já estavam no fogo há muito tempo) e
O graxaim
perguntamos se tinha algo para acompanhar. Trouxeram-nos um saco de pão, facas afiadas para fatiarmos a peça de carne e refrigerantes. Tudo isso por quarenta reais.  Como o salão estava ocupado com o bingo, nos acomodaram numa mesa na cozinha Nós seis nos fartamos com deliciosos sanduiches de frescal na vara e o Alessandro ainda fez uma “quentinha” com o que sobrou para tentar atrair o graxaim (uma espécie de raposinha) que aparece de vez em quando na Pousada e que ele queria muito fotografar.

    À noite, Alessandro, Angélica e Isabel resolveram ir à missa. Andiara e eu ficamos na Pousada e tivemos uma belíssima surpresa: o graxaim apareceu e, mesmo ressabiado e de longe, deixou que fizéssemos ótimas fotos.

    No dia seguinte, bem cedo, já com saudades, despedimo-nos da Pousada e seus simpáticos donos. Pegamos a estrada de volta, progamando conhecer mais uma cidade da região: Urubici. Esta, uma cidade maior, com boa infraestrutura para receber turistas, principalmente no inverno, quando cai a neve. (Em Urupema também cai, mas o turismo lá é menos explorado). Em Urubici fomos conhecer o famoso Morro da Igreja, donde se tem uma vista deslumbrante e se vê a Pedra Furada, uma formação rochosa diferente e muito linda. Foram milhares de fotos no local e, Angélica, ainda não satisfeita, pediu a um senhor que também turistava por lá, para fazer uma foto do grupo com o celular. Após várias tentativas  frustradas, ele devolveu o celular e se ofereceu para   fotografar com a câmera mesmo. Mas o episódio nos rendeu boas gargalhadas! Já no carro, Angélica resolveu examinar o celular e lá estavam várias fotos do turista, com uma cara engraçadíssima. Sem querer, ele havia feito vários selfies!!!
  

Com saudades, deixamos este lugar
Almoçamos em Urubici, mais uma vez encantados com a comida e, principalmente, com o preço dela. Era um restaurante de comida a quilo. Eu estava com bastante fome e comi MUITO bem. Paguei doze reais! E a sobremesa, três tipos a escolher, era cortesia da casa!

    E aí, estrada de novo e de olho no relógio. Tínhamos hora para devolver o carro. Chegamos com meia hora de atraso, mas dentro do prazo de tolerância.

    Depois disso, aeroporto, atrasos irritantes, mas, tudo bem. Chegamos ao Rio numa noite de céu muito limpo, e eu, na janelinha, me encantando com a maravilhosa vista da chegada!

   E assim foi! E mais será quando, com certeza, partirmos para novas aventuras!

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